terça-feira, 28 de abril de 2009


O B A R C O E O

M A R




QUERO ABRAÇAR-TE, SEM REMOS
EM TEU QUADRIL OBSCENO, VELEJAR SEM LIMITES.
NÃO ESPERA QUE EU MAIS LHE AMARRE
UM BARCO DEVE NAVEGAR FEITO UMA RIMA,
SEMPRE A FLUTUAR POR CIMA,
E NATURALMENTE LIVRE.


SE ME REVOLTO AS ÁGUAS E ESBRAVEJO,
TU TE PARTES NUM SIMPLES SACOLEJO
E EM OUTRAS ONDAS QUE TE DESEJAM,
VAIS TU VELEJAR.
DEIXA-ME, COM MEU MISTÉRIO ERRANTE,
QUE SOU MAR, SEMPRE EM BUSCA DE OUTRO AMANTE,
E MINHAS ONDAS NUNCA TÊM O MESMO BALANÇAR.



Lou. Um dia...


*todos os direitos reservados

sexta-feira, 10 de abril de 2009

m e n i n a

Divina
a comédia da vida
do sopro infausto da morte
dos cortes talhados na carne
dos detalhes arrancados
da arte,
na dor
da embriaguez
sarcástica
do riso
e o frio
cálido do gozo
o mumúrio
desumano
da ausência
e a crença
de que tudo é uno.
Divina
a menina dançarina
que perdeu a mãe
e aprenceu num passo
de beleza
a esconder da tristeza
a sua única lágrima.


Lou... Um dia... *todos os direitos reservados

quinta-feira, 2 de abril de 2009

C O M A


Descansei do sorriso
que era vão
e parti
sem entregar meu segredo.
As núvens sopraram no meu rosto
incertezas de muitos séculos
e foi o silêncio
quem cobriu de vento
a minha lágrima.
Eu não colhi nenhuma rosa
para que não me incendiassem vivo,
porém, observei o amadurecimento
de cada pétala
e conheci da natureza
a sua essencial virtude.
As coisas sofrem a decomposição
das pessoas e
a filosofia da dor
acompanha um guerreiro.
Despi-me do medo
para descer ao fogo
aprendi a escrever no escuro
para gozar
na direção do sol...
uma galáxia mora no meu peito
mas o meu corpo é um pássaro
cego.
Se eu tivesse coragem
cuspiria no espelho
e apagaria lembranças
que me alimentam a covardia. Mas eu tentei.
Eu tenho muito pouco pra seguir gritando,
mas eu sou jovem ainda.
Quando me levantar
estarei pronto
para o regresso.
(caso não desperte quero estar debaixo das raízes
de uma rosa).




Lou. Um dia... *todos os direitos reservados

A ignorância começa consumindo os braços, depois fere os lábios, apodrece as pernas, derrete o sexo e por fim fura os olhos das pessoas.
Se aloja em todo o seu corpo e em todos os seus pertences.
Até numa inofensiva escova de dentes.

quinta-feira, 26 de março de 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009

C Ó P U L A










quero gozar minhas palavras
nos teus ouvidos
escorrer meu poema por teus braços
te apertar em fúria
e beijar teu sorriso
beber todas as taças que você derramar
banhar-me em teus segredos
e adormecer de embriaguez
quando a madrugada faz dos cães humanos
e dos homens simples cães
nos teus lençóis em versos firmes
te mordendo a carne
farei na madrugada uma semente eterna.





Lou, um dia...


*todos os direitos reservados





segunda-feira, 16 de março de 2009

VIDA APÓS A MORTE


Da forma mais doce,

eu não falaria terno

nem espalhando flores

no meu cemitério.

Encontrares vida

podes

nem que entre ôcas ossadas

caveiras embebidas de nada,

mausoléus entupidos de tudo.

Alguma rosa que goste de escuro,

alguma música que dance si mesma,

talvez idéias que gemem sussurros,

velas eternas, sempre acesas.

Mas nem que eu fôsse surdo falaria

o que nem sei se pode ser ouvido,

o que pertence à minha fantasia

mas alguém já pode ter sentido.

Ficou em mim e, se eu deixar não basta

e cabe um pouco em cada poema

por isso me desnudo em emblemas e palavras

para um destino

que no vão me enterra.

Eu volto para escrever

o que não coube em túmulo;

E, se não coube é porque há de não morrer.

Que, se na morte encontro eu aprumo

o que me traz à vida é o que eu não sei dizer.

Seria doce se amargo não fôsse,

sereno, polido, se não fôsse insano.

Seria raso, se não tão profundo

e possível, se fôsse nesse plano.

*todos os direitos reservados

sexta-feira, 13 de março de 2009

Mágico de Nós

 

Eu tenho medo de subir o monte

atravessar a estrada que não tem saída;

ver os ossos jogados aos montes,

e o sertão da minha vida.My Wallpaper

 

Eu tenho gana da ganhar a lida,

mas o deserto vermelho é infinito,

eu paro no meio e me fito.

Ali, desarreio e grito.

 

O mar fica dentro do chão

se eu cavar meu coração

nasce o meu rio sofrido

se eu lavar a canção,

vou ferir seus ouvidos;

cáio na transmutação

de um poeta perdido

que canta sua perdição

nos vales do infinito.

 

Vai a solidão rachar léguas

com a foice maldita da culpa

os homens perseguem a regra

que a vida é muito curta

no cessar da fartura

meu alimento é a luta.

 

Os pagãos andam na beira

de sentimentos estranhos

lavam os olhos com areia,

moram com os ciganos

pregam verdades alheias

que morrem no oceano.

 

Um forte de rosto assombrado

moreno de raio sereno

na lama de um céu atolado

no vão de um caminho terreno

segura nas mãos a camisa

 

lavada do sal do seu rio

joelho ferido das cinzas

das preces, nas noites de frio

olhar machucado de garça

coruja ferida nas asas

voando, pro seu desafio.

 

Meus anos, proezas passadas,

tão moço, meu sonho infantil

na euforia com a molecada

eu parto num velho navio.

 

Daqui, espreito o horizonte

adiante, a beleza dum pasto.

Deserto e cinzento diamante

de vida sem fim nem compasso.

 

                                   *todos os direitos reservados

segunda-feira, 2 de março de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A V E Z D O D I A B O


O Diabo apareceu pra mim
e carregava uma cabeça humana
alguém que penso eu nunca existiu
a ilusão de uma mente profana.


Mas vi como era grande o rei do mal
e a sua boca arremessando fogo
e sua palavra que não sái do povo
e o seu conhecimento maestral.


À trovoadas que racharam montes
provérbios de Niestche, versos de Platão
falou da nossa cosmoescravidão
e desdenhou nossa pseudocrença.


É o que esconde os tesouros do mundo
e desposou de muita inocência
estuda o elixir da juventude
que arrastará pra si a obediência.


E compreendi que ele é o pagamento
por tudo o que os homens desprezaram
pois ele incita o nosso pensamento
a destruir o que os sábios plantaram.


É o cansaço e o medo de criarmos
tem vinte chifres numa só cabeça
e cada chifre aponta para um plano
em cada plano uma descendência.


Mas descobri como o Diabo é triste
pela missão que os homens lhe entregaram
de ser o precursor do mal que existe
e enterrar os membros que amputaram




vi que no fundo é uma criança morta
e espera a hora de nascer de novo
é um palhaço que nos bate à porta
não é tão feio como diz o povo.


Se dermos uma chance ao Diabo?
Se confiarmos em sua amizade?
E se o amarmos como um bom diabo?
E se for ele parte da verdade?


O que não pode o amor curar?
E se ele nos mostrar aonde está o céu?
E se só nos restar essa missão,
salvá-lo dessa triste solidão,
banir o mal estigmatizado
trazendo o diabo para o nosso lado... ?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sociedade dos Homens sem olhos

Acordou bem cedinho, espreguiçou-se, como era de praxe então rezou: Pai Nosso, Ave Maria e um provérbio que o seu bisavô lhe ensinou,
Vestiu sua camisa engomada, uniforme de bom trabalhador, olhou ao seu redor e não viu nada, só uma casa arrumada e sem sabor, a mulher que servia de empregada só limpava e falava do calor, das contas e da máquina estragada que lavava até mesmo o despudor da roupa do casal que não se amava, mas que à noite se usava sem terror.
Cogitando estas coisas vacilou entre a mesa forrada e o elevador, degustou o café e a torrada, e saiu pela estrada da sua dor.
“Esse é só mais um dia, _pensou firme. _no passado eu estive sem lugar, hoje eu tenho TV, não tenho filhos, isso é o bastante pra aceitar.”
Depois de ter pagado a lotação, sufocado de gente a reclamar, desceu na mesma rua sem canção, entrou no edifício sem cantar, e logo cumprimentou pegando a mão de gente que sorria sem brilhar, que olhava sem ver o coração e que desconhecia seu azar.
E sentado pro seu computador, acionou o botão pra começar, respirou tudo bem condicionado, tudo iluminado e sem lugar, sem o sol que assovia na manhã, sem sua mente sã pra perturbar,
Trabalhou todo o dia bem ligado, universo antenado, informação, veio lendo out-doors, placas e faixas, frases de pára-choques de caminhão
E numa dessas frases veio alado o cavalo empacado em sua prisão.
Chegou logo em casa e sem conversa, mergulhou no chuveiro com a lição, que era a própria vida que mostrava que havia algo mais além do chão, e deixou que a água fosse a sua consciência lavando a indecisão e enxaguou toda a alma e deixou nua sua sede de paz, libertação,
Deixou impregnada no azulejo a sujeira de anos de cegueira, e deixou aberta a cicatriz que se abriu como nuvens de poeira, e num êxtase santo eclodiu, foi manchando o azulejo feito a cera, e mulher feito máquina rugiu o descaso com tudo o que fizera, e ele disse tudo o que descobriu, como foi que sentiu a primavera, o passado e tudo o que destruiu, pra viver como um vil ao lado dela, e cuspiu muito mais e explodiu, sentindo não caber naquela espera, mas não quis levar nada do que viu, tudo o que construiu era uma esfera que pesava nas costas e despiu deixando pra mulher que Deus lhe dera;
Mas rezou qualquer coisa que podia e voou como pena nas escadas, foi sangrando o feto que paria no meio da folia da algazarra, em fração de segundos já fugia e alguém perseguia sua pegada, sirenes e homens de uniformes disformes, mulheres assustadas, foi cantando e disseram ser um louco que deixou a rodovia engarrafada, e estava nu, molhado e puro perturbando a paz
Da cidade desencantada.


Lou Gomes