quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A TORRE DE PAPEL


O pedreiro comprou uma rede.
Mudou de vida, foi ser pescador...
Só pescou tijolos num mar de areia,
Passou tanta fome que se revoltou.

Foi para a cidade derrubar casas,
As mesmas casas que ele levantou.
Juntava os entulhos de sua glória,
Apagava a história que não terminou.

Perdeu seu emprego porque não sabia
Quebrar as pilastras sem ver poesia
No puro concreto do seu coração.

No fundo uma voz às vezes dizia
Que já não podia fazer a cidade.
Cada tijolo uma vida vazia
E a poluição enforcava a verdade.

Mas por que sentia tal necessidade?
Construir queria, mas outra cidade;
Concretos mais retos e indestrutíveis,
Verdades mais críveis e tetos esparsos,
Para que toda gente tivesse uma história
Sem ruas, gaiolas, classes sociais
-e queria mais: pintar todas as casas...
E desenhar asas em cada janela,
Plantar margaridas em cada avenida,
Enfeitar a vida de muita alegria.

Até que um dia, já raso, já cheio,
O nosso pedreiro saiu do bueiro
E foi para o morro com um balde de tinta
Pintando os barracos de gente faminta.

“Não sei quem é ele, dizem pescador...
Mansões derrubou, casas levantou.
Agora trabalha sem ganhar dinheiro.
Quer pintar o mundo inteiro.
Veja só o que a nossa favela virou.”


Lou Gomes


*todos os direitos reservados

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